A assimetria de poder é o tema que se esconde atrás de toda conversa sobre agentes de IA. A tecnologia concentra capacidade: quem a controla e quem a aplica bem ganha uma vantagem que se acumula, e quem fica de fora vai ficando para trás num ritmo difícil de recuperar. Para o debate público, isso vira discussão sobre big techs e regulação. Para quem dirige uma empresa de médio porte no Brasil, a pergunta é mais concreta e mais urgente: de que lado dessa assimetria a sua empresa vai ficar. Este artigo separa as camadas dessa divisão e mostra o que está ao seu alcance.

Resumo rápido
- Agentes de IA concentram capacidade. Isso cria uma assimetria de poder que opera em camadas, da economia global ao mercado da sua cidade.
- A primeira camada é entre quem desenvolve a tecnologia e quem a usa. Poucas empresas globais controlam os modelos e a infraestrutura.
- A segunda camada, a que mais importa para o médio porte, é entre empresas que adotam agentes e empresas que não adotam. O fosso de produtividade entre elas cresce.
- A terceira é social: o acesso à IA é desigual por renda e escolaridade, e tende a ampliar diferenças que já existem.
- Há um contraponto real: o custo de usar IA cai, o que aproxima o acesso, e a tecnologia pode ampliar pessoas em vez de substituí-las. O resultado não está predeterminado.
- Para o CEO de médio porte, o risco maior não é depender de um fornecedor de tecnologia. É ficar do lado errado da segunda camada, como a empresa que não adotou.
- A vantagem defensável não está em ter o modelo, e sim em aplicar agentes ao seu conhecimento de domínio, aos seus processos e aos seus dados, que o concorrente não tem.
O que significa assimetria de poder na era dos agentes
Assimetria de poder descreve uma situação em que um lado tem capacidade de decidir, influenciar ou capturar valor muito maior que o outro. A tecnologia sempre mexeu nesse equilíbrio, às vezes nivelando, às vezes concentrando. Os agentes de IA pendem para a concentração, porque o seu valor cresce com escala, dados e capacidade técnica, três coisas que se acumulam em quem já tem mais.
O ponto importante é que essa assimetria não é uma só. Ela opera em camadas que se sobrepõem, e confundir uma com a outra leva a conclusões erradas. Uma coisa é a concentração de poder entre os gigantes globais de tecnologia. Outra é o fosso que se abre entre empresas de um mesmo setor. Outra ainda é a desigualdade de acesso entre pessoas. Para reagir bem, é preciso ver as três separadas.
| Camada | O que é | O que está ao seu alcance |
|---|---|---|
| Global (big tech) | Poucas empresas controlam modelos e infraestrutura | Pouco; criar valor que não dependa só disso |
| Entre empresas | Quem adota agentes se distancia de quem não adota | Muito; é a camada que decide o seu futuro |
| Social | Acesso à IA desigual por renda e escolaridade | Levar a ampliação ao maior número de pessoas |
Camada 1: entre quem desenvolve e quem usa
A camada mais discutida é a global. Críticos apontam que um número pequeno de empresas, a maioria fora do Brasil, controla os modelos de IA mais avançados e a infraestrutura que os roda, e aluga esse acesso ao resto do mundo. Daí decorre, segundo essa visão, uma concentração de riqueza e de poder de decisão sem paralelo recente.
O economista Daron Acemoglu, prêmio Nobel de 2024 e coautor de “Poder e Progresso”, dá a essa preocupação a sua formulação mais influente. Para ele, a IA, do jeito que vem sendo desenvolvida, tende a aumentar o poder do capital sobre o trabalho, e a prosperidade só será compartilhada se a tecnologia for usada para complementar trabalhadores, não para substituí-los. No cenário de risco que ele descreve, os ganhos se concentram em uma elite que detém os meios de produção e de poder. Organismos como a UNCTAD alertam na mesma direção: sem equidade, a IA pode aprofundar desigualdades entre países e dentro deles.
É uma preocupação séria e legítima. Mas para o dono de uma empresa de médio porte, ela tem um limite prático: ele não vai resolver a concentração global de poder tecnológico, e organizar a sua estratégia em torno desse problema é gastar energia onde ele não tem alavanca. O que ele precisa entender dessa camada é mais modesto e mais útil: que depender de uma camada de tecnologia controlada por poucos é um fato do tabuleiro, e que a resposta a isso não é abdicar da tecnologia, e sim escolher onde construir valor que não dependa dela.
Camada 2: entre quem adota e quem não adota
Esta é a camada que decide o futuro da sua empresa, e é a menos comentada. A assimetria que mais afeta o médio porte brasileiro não é entre você e uma big tech. É entre você e o concorrente da sua cidade que adotou agentes antes.
Os dados são claros sobre o tamanho do fosso. Segundo a OCDE, a adoção de IA é muito desigual por porte: por volta de 12% das pequenas empresas e 20% das médias usavam IA, contra cerca de 40% das grandes. E a adoção anda colada à produtividade: a fatia de empresas que usam IA no décimo superior de produtividade é bem maior do que na base. Em outras palavras, as empresas mais produtivas adotam mais, e adotar as torna ainda mais produtivas. É um ciclo que se retroalimenta e que, deixado correr, transforma uma diferença pequena de hoje numa distância intransponível amanhã.
Para o médio porte, essa é a leitura que importa. A empresa que mapeia seus processos e coloca agentes para absorver o trabalho repetitivo libera horas humanas, baixa custo por operação e ganha velocidade. A que não faz isso continua pagando caro por trabalho que o concorrente já automatizou. Em mercados de margem apertada, essa diferença de estrutura de custo não é detalhe: é quem sobrevive à próxima guerra de preço. A assimetria de poder, nesta camada, é uma assimetria de eficiência, e ela está inteiramente ao seu alcance.
Camada 3: a desigualdade dentro da sociedade
A terceira camada é social, e os líderes de empresa precisam conhecê-la porque ela afeta o time e o mercado. O acesso à IA é desigual por renda e escolaridade. Levantamentos no Brasil mostram diferenças marcantes: o uso de IA generativa é muito maior nas classes de renda mais alta e entre pessoas com ensino superior do que nas faixas de menor renda e escolaridade. Quem já tinha mais ferramentas ganha mais uma, e a distância aumenta.
Dentro da empresa, isso aparece como uma divisão entre quem incorpora a IA ao trabalho e quem fica para trás. O Fórum Econômico Mundial projeta que cerca de 39% das competências exigidas no trabalho se transformem até 2030, o que coloca uma parte da força de trabalho em risco de obsolescência de habilidades. A resposta responsável de um líder não é ignorar isso nem usá-lo como desculpa para cortar, e sim levar a ampliação para o maior número de pessoas possível, em vez de concentrá-la nos poucos que já chegariam lá sozinhos.
O outro lado do argumento
Seria desonesto apresentar a assimetria como destino. Há um contraponto consistente, e ele também se apoia em evidência.
O primeiro ponto é o custo. O preço de usar IA de ponta vem caindo de forma acelerada, e o que era caro e exclusivo há dois anos hoje cabe no orçamento de uma empresa pequena. Essa queda empurra na direção contrária à concentração, porque aproxima o acesso. A OCDE registra que muitas pequenas e médias empresas já economizam vinte horas ou mais por mês automatizando tarefas, um ganho que antes só grandes operações capturavam.
O segundo é a natureza da tecnologia. A mesma IA que Acemoglu teme como substituta pode ser usada como complemento, e essa é uma escolha de desenho, não uma fatalidade. Quando a ferramenta amplia pessoas, ela tende a elevar mais quem sabia menos, reduzindo distâncias dentro do time em vez de aumentá-las. O resultado, nesse caso, é menos assimetria, não mais.
O terceiro é que vantagem inicial não é vantagem permanente. No mundo digital, lideranças se invertem rápido quando um entrante usa a tecnologia melhor do que o incumbente. A história recente está cheia de empresas grandes ultrapassadas por concorrentes menores e mais ágeis. A assimetria de poder não congela o tabuleiro; ela só aumenta o prêmio de jogar bem.
A leitura equilibrada, portanto, é esta: a IA empurra para a concentração, mas há forças reais empurrando para o outro lado, e o desfecho depende de escolhas, inclusive das suas.
O que um CEO de médio porte faz com isso
Saindo do diagnóstico para a ação, três posturas colocam a sua empresa do lado certo da assimetria.
A primeira é não ser a empresa que não adotou. Dado o fosso de produtividade que a OCDE mede, a inércia é a decisão mais arriscada que existe hoje. Não é preciso fazer tudo de uma vez, mas é preciso começar, por um processo de alto volume e baixo risco, e avançar com método. Esperar para ver é escolher a margem do fosso onde fica quem perde.
A segunda é construir valor onde a dependência da tecnologia importa menos. Você não precisa ter o modelo de IA para capturar o valor dele, assim como não precisa fabricar eletricidade para mover a sua fábrica. O que torna a sua empresa difícil de copiar não é o modelo, que o concorrente também aluga, e sim o seu conhecimento de domínio, os seus processos e os seus dados de operação, acumulados ao longo de anos. Aplicar agentes a esse acervo é o que cria uma vantagem que não se compra na prateleira.
A terceira é levar a ampliação para dentro, de forma ampla. Em vez de concentrar a IA num punhado de pessoas, espalhe a capacidade pela operação, para que o ganho não reproduza, dentro da sua empresa, a mesma assimetria que se vê fora. Times ampliados de ponta a ponta entregam mais e dependem menos de poucos especialistas insubstituíveis.
A posição da Stellatus nessa discussão é coerente com o que defendemos em tudo: a transformação agêntica não é automação total, e sim uma decisão econômica, função por função, que combina pessoas ampliadas e agentes dedicados. É essa combinação que permite a uma empresa de médio porte fechar a distância para os grandes sem precisar virar um deles. A assimetria de poder é real. O que ela não é, para quem decide agir, é uma sentença.
Sua empresa está do lado certo dessa divisão?
A Stellatus ajuda o médio porte a fechar a distância de produtividade com agentes aplicados ao negócio. Agende um diagnóstico.
Perguntas frequentes
O que é assimetria de poder na era dos agentes de IA?
É a diferença crescente de capacidade entre quem controla ou aplica bem os agentes de IA e quem fica de fora. Ela opera em camadas: entre os gigantes globais de tecnologia e o resto, entre empresas que adotam IA e as que não adotam, e entre pessoas com mais e menos acesso. Cada camada exige uma leitura própria.
A inteligência artificial aumenta a desigualdade?
Pode aumentar ou reduzir, dependendo de como é usada. Críticos como o economista Daron Acemoglu argumentam que, do jeito atual, a IA tende a concentrar poder e renda. Por outro lado, a queda no custo de uso e o emprego da IA para ampliar pessoas empurram na direção oposta. O resultado depende de escolhas, não é predeterminado.
Qual assimetria mais afeta uma empresa de médio porte?
A que separa as empresas que adotam agentes das que não adotam. Dados da OCDE mostram que as empresas mais produtivas adotam mais IA, e que adotar as torna ainda mais produtivas, num ciclo que aumenta o fosso. Para o médio porte, esse é o risco concreto, mais do que a concentração global de poder tecnológico.
Preciso ter a minha própria IA para não ficar para trás?
Não. Você não precisa desenvolver o modelo para capturar o valor dele, assim como não precisa gerar a própria energia para mover a fábrica. A vantagem defensável vem de aplicar agentes ao seu conhecimento de domínio, aos seus processos e aos seus dados, que o concorrente não tem como copiar facilmente.
Como evitar ficar do lado perdedor dessa divisão?
Comece a adotar agentes com método, por um processo de alto volume e baixo risco, construa valor sobre o que é seu (domínio, processos, dados) e espalhe a ampliação pela operação, em vez de concentrá-la em poucos. A inércia é hoje a decisão mais arriscada, porque o fosso de produtividade cresce enquanto a empresa espera.
A vantagem de quem adotou primeiro é permanente?
Não necessariamente. No mundo digital, lideranças se invertem rápido quando um concorrente usa a tecnologia melhor. A vantagem inicial é real, mas o que a sustenta é jogar bem de forma contínua, aplicando os agentes ao que a empresa tem de único, não apenas ter chegado antes.
Outros artigos relacionados
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Fontes e referências
- Daron Acemoglu e Simon Johnson: Poder e Progresso
- OECD: AI adoption by small and medium-sized enterprises (2025)
- World Economic Forum: Future of Jobs Report 2025
- ONU News: sem equidade, IA pode aumentar desigualdades (UNCTAD)
- Le Monde Diplomatique Brasil: a IA e a nova fronteira da desigualdade no Brasil